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Road trip pelo sul selvagem: de Souillac a Chamarel

Road trip pelo sul selvagem: de Souillac a Chamarel

Atualizado em: novembro de 2018

Dois dias para descobrir o verdadeiro rosto do sul

Já me tinham avisado. “O sul das Maurícias é áspero, não tem nada a ver com a costa oeste.” Foi exatamente por isso que reservei um carro já no segundo dia da minha estadia. Apetecia-me algo mais bruto. Algo que não se parecesse com as fotografias retocadas das brochuras turísticas.

Este road trip de dois dias entre Souillac e Chamarel foi uma das melhores decisões de viagem da minha vida. Aqui fica como vivi esta aventura, e como pode organizar a sua. Para o contexto prático do road trip pela ilha, o nosso guia completo do road trip na ilha Maurícia cobre tudo o que precisa de saber.

Em resumo

OndeDe Souillac a Chamarel, via Bel Ombre
Duração recomendada2 dias inteiros, 1 noite no local
OrçamentoCerca de 60 a 80 € por dia para duas pessoas, carro incluído
Como chegarAluguer de carro indispensável, partida de Mahébourg ou do sul
Melhor épocaDe maio a novembro, evitando as chuvas fortes de janeiro-fevereiro (meteorologia)

Dia 1: Souillac e a costa selvagem

A partida desde Mahébourg

Optei por partir de Mahébourg, pequena cidade costeira do sudeste que serve de base ideal para explorar o sul. A estrada B9 acompanha a costa para oeste, e desde logo a paisagem muda. Acabou-se a lagoa protegida, os recifes de coral e as águas calmas — aqui, o oceano Índico mostra os dentes.

Mahébourg por si só merece uma manhã. O seu mercado de segunda-feira é lendário — se passar por lá numa segunda de manhã, não o perca por nada. E o museu histórico da cidade conta o naufrágio do Saint-Géran em 1744 e a batalha de Grand Port em 1810, uma das raras vitórias navais napoleónicas comemoradas no Arco do Triunfo em Paris.

Souillac fica a cerca de 40 minutos de Mahébourg. A cidade em si não é particularmente pitoresca — algumas lojas, uma igreja, ruas tranquilas. Mas não era a cidade que me interessava.

O jardim de Robert Edward Hart

À entrada de Souillac, o jardim de Robert Edward Hart parou-me em seco. Este pequeno museu dedicado a um dos maiores poetas mauricianos está instalado numa casa de coral branco de frente para o mar. O edifício em si, com as suas paredes espessas talhadas em coral fóssil, é magnífico. O interior conserva os móveis, os livros e os manuscritos do poeta, numa atmosfera de rara autenticidade.

Passei ali meia hora, a escutar o som das ondas contra as falésias, a ler alguns versos expostos nas paredes. Um lugar fora do tempo que ilustra na perfeição o lado cultural das Maurícias que os circuitos turísticos clássicos demasiadas vezes ignoram. Para saber mais sobre estes aspetos culturais, o nosso guia dos mercados e da cultura apresenta os locais patrimoniais mais interessantes da ilha.

As falésias de Gris-Gris

Gris-Gris — o nome já soa misterioso. Estas falésias de basalto negro açoitadas pelo vento constituem um dos locais mais espetaculares da ilha, e um dos menos frequentados. Aqui não há lagoa protegida, nem águas turquesa. O oceano chega em rolos massivos que se esmagam contra as rochas vulcânicas com um estrondo surdo e poderoso.

Atenção: não se toma banho em Gris-Gris. As correntes são violentas, as ondas imprevisíveis. Mas senta-se nas rochas, observa-se, respira-se o ar salgado carregado de espuma, e percebe-se porque é que os mauricianos chamam a este cantinho “o fim do mundo”.

Há um trilho que acompanha a falésia para leste. Siga-o. Oferece vistas de tirar o fôlego sobre as ondas que se engolfam em grutas naturais escavadas na rocha basáltica. É uma face das Maurícias que a maioria dos turistas nunca vê — a versão selvagem, não domesticada, indisciplinada da ilha.

O nosso ranking das praias mais bonitas das Maurícias inclui Gris-Gris não pela possibilidade de nadar mas pela contemplação — uma categoria à parte dentro das riquezas litorâneas da ilha.

A rocha que chora e o sopro

A poucos quilómetros a oeste de Gris-Gris, mais duas maravilhas naturais. A Rocha que Chora é uma formação rochosa negra sobre a qual a água escorre em permanência, como lágrimas a deslizar no rosto de uma figura humana. Poética e um pouco melancólica, à imagem da paisagem envolvente.

O Souffleur, por sua vez, é um géiser natural formado por uma fissura na rocha. Quando as ondas chegam com força suficiente, a água jorra pelo orifício num jato potente acompanhado de um assobio característico. Em alguns dias, com maré agitada, o espetáculo é grandioso. Noutros, se o mar estiver calmo, o Souffleur permanece silencioso — é essa a beleza dos fenómenos naturais, a sua imprevisibilidade.

Noite em Bel Ombre

Ao final da tarde, segui até Bel Ombre, ao longo da costa sudoeste. Esta região, que durante muito tempo ficou à margem do desenvolvimento turístico, tem conhecido nos últimos anos um renovado interesse com a instalação de alguns lodges e propriedades. Optei por um quarto pequeno numa pousada de charme gerida por uma família local — pequeno-almoço com bolos caseiros, varanda com vista sobre os campos de cana-de-açúcar, pôr do sol a sós com o oceano.

Bel Ombre é uma das regiões menos turísticas das Maurícias, e é precisamente isso que lhe dá encanto. Longe de Grand Baie e da sua animação, está-se aqui numa ilha Maurícia tranquila e autêntica. O domínio de Bel Ombre é uma das últimas grandes propriedades coloniais da ilha, com os seus campos de cana, a sua reserva natural e o seu hotel de luxo acessível a não-residentes mediante um pacote de dia inteiro.

Dia 2: rumo às terras de Chamarel

A manhã nas gargantas

Na manhã seguinte, segui em direção a norte, subindo para o interior. A estrada que atravessa as Gargantas do Rio Negro é magnífica — uma sucessão de curvas que sobem por uma vegetação densa, com vistas súbitas sobre vales encaixados cobertos de floresta primária.

O Parque Nacional das Gargantas do Rio Negro é o maior espaço natural protegido da ilha. Alguns trilhos sinalizados permitem aventurar-se a pé — recomendo a caminhada até ao Piton de la Petite Rivière Noire, o ponto mais alto da ilha a 828 metros. O nosso guia de caminhadas na ilha Maurícia detalha todos os trilhos acessíveis neste parque excecional, do passeio de 1h ao trekking de um dia inteiro.

Nesse dia não tive tempo. Fiquei-me por uma paragem no miradouro do Parque, que já oferece vistas impressionantes sobre as gargantas arborizadas lá em baixo — um mar verde e denso a perder de vista, habitado por espécies que não encontrará em mais nenhum lugar: o quiribita mauriciano, o pombo rosa, o periquito das Maurícias.

Chamarel: as terras de sete cores

Chamarel. O nome faz parte da mitologia turística das Maurícias. E desta vez a realidade está à altura da reputação.

As Terras de Sete Cores são uma duna de terra vulcânica que apresenta tons que vão do vermelho-ocre ao violeta, passando pelo castanho, o verde, o azul e o amarelo. O que torna o fenómeno fascinante é que as cores nunca se misturam, mesmo com chuva — a separação dos pigmentos minerais é natural e permanente. O nosso guia completo de Chamarel e das suas terras coloridas explica a origem geológica deste fenómeno único no mundo.

Se não quiser conduzir, a excursão guiada a Chamarel com terras coloridas e cascata inclui o transporte a partir do seu hotel.

Cheguei lá a meio da manhã, antes da multidão dos autocarros de turismo (conselho prático: vá antes das 10h ou depois das 15h). A duna está cercada por uma vedação para evitar que os visitantes pisem as formações e as perturbem. Isso em nada tira à beleza do espetáculo visto a partir dos miradouros montados para o efeito.

A entrada é paga mas razoável. O local inclui também um parque com tartarugas gigantes de Aldabra — uma visita adicional muito apreciada se tiver filhos ou se for curioso quanto à fauna local.

As cascatas de Chamarel

A menos de dois quilómetros das terras coloridas, as cascatas do Rio Saint-Denis mergulham 83 metros num tanque rodeado de vegetação tropical densa. É uma das cascatas mais altas das Maurícias, e uma das mais fotogénicas.

Segui o trilho que desce até ao miradouro inferior — cerca de vinte minutos de caminhada pela floresta, com sons de pássaros e rãs que vão cobrindo progressivamente o ruído da cascata. A vista lá de baixo é impressionante. A água cai num estrondo contínuo, projetando um borrifo fresco até ao caminho. Mesmo os visitantes com roupa leve saem molhados — leve roupa de reserva se descer até ao fundo.

Almoço na aldeia de Chamarel

A aldeia de Chamarel, empoleirada nas alturas, tem alguns restaurantes que merecem a visita. Comi num terraço com vista para a península do Morne ao longe e o oceano no horizonte — um cenário que tornaria delicioso qualquer prato, mas o caril de peixe era, de qualquer forma, notável. A gastronomia crioula neste contexto de aldeia autêntica, longe dos restaurantes turísticos da costa, é uma experiência à parte.

A aldeia produz também café — encontra-se ali uma das raras plantações de café da ilha. Alguns estabelecimentos propõem provas de cafés aromatizados com baunilha das Maurícias, rum ou especiarias locais.

A tarde: a destilaria de Chamarel

Mesmo por baixo da aldeia, a destilaria de Chamarel é incontornável para quem se interessa pelo rum mauriciano. Ao contrário das grandes destilarias industriais do norte da ilha, Chamarel é uma destilaria artesanal que produz os seus runs a partir de sumo de cana-de-açúcar fresco — um método raro a que se chama rum agrícola.

A visita guiada à destilaria é instrutiva e bem conduzida. Acompanha-se o processo desde a plantação até à garrafa, veem-se os alambiques de cobre, percebe-se a diferença entre um rum branco de cana e um rum velho e âmbar. E, claro, termina-se com uma prova.

Os seus runs aromatizados — baunilha, café, coco, ananás — são de muito boa qualidade, claramente acima dos produtos semelhantes que se encontram nas lojas turísticas. Trouxe três garrafas comigo. A Rhumerie de Chamarel propõe também um restaurante gastronómico com uma das vistas mais bonitas da ilha sobre a costa e o horizonte do oceano Índico. Também pode reservar antecipadamente a visita e prova na rhumerie de Chamarel para evitar as filas de espera.

O roteiro hora a hora

Para quem quiser planear ao pormenor os dois dias, aqui fica o ritmo que aconselho agora, com a experiência ganha:

MomentoEtapa
Dia 1, manhãPartida de Mahébourg, mercado se for segunda-feira
Dia 1, final de manhãSouillac: jardim Robert Edward Hart
Dia 1, início de tardeGris-Gris, a Rocha que Chora, o Souffleur
Dia 1, final de tardeEstrada até Bel Ombre, instalação para a noite
Dia 2, manhãGargantas do Rio Negro, miradouro
Dia 2, meio do diaChamarel: terras de sete cores, cascatas
Dia 2, tardeAlmoço na aldeia, destilaria de Chamarel

Este faseamento evita o erro clássico de querer encaixar tudo num único dia: o sul merece que se abrande, e as melhores luzes (manhã sobre as falésias, final de tarde sobre as terras coloridas) recompensam quem tem paciência.

Prolongar até ao Morne ou até ao itinerário completo

Se a sua estadia o permitir, há duas opções depois deste road trip de dois dias. A primeira consiste em seguir diretamente para Le Morne, a 30 minutos de Chamarel, para aproveitar a lagoa e eventualmente uma sessão de kitesurf ou caminhada na montanha classificada pela UNESCO. A segunda consiste em integrar este road trip num circuito completo da ilha: o nosso itinerário road trip e o nosso itinerário de 7 dias mostram como articular o sul com o resto das regiões, sem repetir as mesmas estradas duas vezes.

Para o alojamento da noite intermédia, se a pousada em Bel Ombre não lhe agradar, o nosso guia sobre onde dormir no sul reúne outras opções, do orçamento reduzido aos resorts.

Conselhos práticos para este road trip

O carro é indispensável. Os transportes públicos cobrem mal esta região, e mesmo que a cobrissem, a liberdade de parar ao sabor das paisagens é essencial. O nosso guia de aluguer de carro ajuda-o a escolher o veículo e a agência certos. Conduzir pela esquerda exige alguma adaptação, mas as estradas do sul são geralmente pouco movimentadas.

A estação: este road trip faz-se durante todo o ano, mas o período de maio a novembro é o mais agradável. Temperaturas amenas, risco de chuva moderado, luz magnífica para fotografia. No verão austral (dezembro-março), as chuvas podem ser mais frequentes nas alturas de Chamarel e nas gargantas. O nosso guia da meteorologia na ilha Maurícia ajuda-o a escolher a melhor época.

O orçamento: conte com cerca de 60 a 80 euros por dia para duas pessoas, aluguer de carro incluído, optando por uma pousada local em vez de um hotel de cadeia. As entradas pagas (Terras de Sete Cores, destilaria) mantêm-se acessíveis. Para um orçamento detalhado, consulte o nosso guia de orçamento.

A combinação com Le Morne: se tiver um dia extra, Le Morne Brabant fica a 30 minutos de Chamarel. A península classificada pela UNESCO, a lagoa de azul intenso e os praticantes de kitesurf que evoluem nos alísios fazem dela uma das imagens mais memoráveis da ilha.

As estradas: algumas estradas do sul são estreitas e serpenteiam entre muros de vegetação. Não se surpreenda se se cruzar de repente com um trator carregado de cana-de-açúcar. A regra não escrita: a educação e a calma resolvem todas as situações.

O que este road trip me ensinou

O sul das Maurícias é uma ilha dentro da ilha. Não tem a suavidade das praias do oeste, a mundanidade do norte, o efervescência da capital. É bruto, autêntico, por vezes um pouco áspero — e é precisamente isso que o torna inesquecível.

Quem parte à sua descoberta leva consigo algo que as praias de Grand Baie ou Trou aux Biches não conseguem dar: a sensação de ter tocado em algo verdadeiro. De ter visto as Maurícias ao natural, sem filtros nem encenação.

Se nunca pôs os pés no sul da ilha, ainda não viu verdadeiramente as Maurícias. Alugue um carro, dê-se tempo, ponha-se a caminho. O nosso itinerário road trip completo propõe um circuito mais amplo por toda a ilha, caso queira integrar esta exploração do sul numa viagem mais completa.

E se dois dias no sul lhe despertaram vontade de mais, o nosso itinerário de 10 dias integra esta região num programa de descoberta completa da ilha.