Guia do rum mauriciano: destilarias, provas e garrafas para trazer
Atualizado em: abril de 2022
As Maurícias e o rum: uma história de amor antiga
A cana-de-açúcar está intimamente ligada à história das Maurícias. Introduzida pelos colonos holandeses no século XVII, cultivada em massa sob o domínio francês e depois britânico graças ao trabalho de escravos e depois de trabalhadores contratados, a cana-de-açúcar desenhou as paisagens da ilha e moldou a sua economia durante séculos.
Hoje, embora as grandes fábricas de açúcar industriais tenham na maioria fechado ou fundido, o rum mauriciano vive um renascimento notável. Várias destilarias, algumas artesanais, produzem rums de uma qualidade que começa a fazer falar deles bem além do oceano Índico. Seria uma pena partir sem explorar este universo.
Conduzir pelas estradas das Maurícias em certas épocas do ano é atravessar corredores de cana-de-açúcar que formam túneis de verdura dos dois lados da estrada. Esta cana omnipresente, visível desde Chamarel até Mahébourg, passando pelo sul de Tamarin, é o ADN agrário da ilha e a matéria-prima do rum mauriciano.
Em resumo
| Onde | destilarias espalhadas por toda a ilha, sendo a mais visitada Chamarel |
| Preço de uma visita guiada + prova | cerca de 15 a 25 euros por pessoa |
| Tempo necessário | 1h30 a 2h por destilaria, um dia inteiro para um verdadeiro “rum tour” |
| Como chegar | aluguer de carro recomendado para encadear vários domínios |
| Melhor época | todo o ano, as destilarias estão abertas fora de más condições meteorológicas graves |
Os dois estilos de rum mauriciano
Antes de visitar as destilarias, é preciso compreender a distinção fundamental que divide o mundo do rum:
O rum de melaço (ou rum industrial) é produzido a partir do melaço, subproduto do fabrico de açúcar. É o estilo dominante nas Caraíbas (Bacardi, Havana Club) e é também o que produziam historicamente a maioria das grandes destilarias mauricianas.
O rum agrícola é produzido diretamente a partir do sumo de cana-de-açúcar recém-prensado, sem passar pelo melaço. Técnica desenvolvida sobretudo na Martinica e em Guadalupe, dá um rum mais aromático, mais vegetal, com notas herbáceas e uma complexidade aromática superior.
Nas Maurícias, a distinção entre os dois estilos é menos nítida do que nas Antilhas. Algumas destilarias produzem rums de melaço envelhecidos de grande qualidade; outras, como a Chamarel, especializaram-se no rum agrícola. Compreender esta diferença é compreender por que razão os rums mauricianos têm caracteres tão distintos de garrafa para garrafa.
As destilarias a visitar
Chamarel: o artesão
A destilaria de Chamarel é sem dúvida a mais conhecida entre os turistas que visitam o interior da ilha, e por boas razões. Instalada nas alturas de Chamarel, no meio da plantação de cana-de-açúcar do domínio, a destilaria produz exclusivamente a partir de sumo de cana fresco — rum agrícola, portanto.
A visita guiada está bem concebida e é acessível a todos, mesmo sem conhecimento prévio do tema. Acompanha-se o processo de A a Z: as canas cortadas à mão, a moagem, a fermentação, a destilação nos alambiques de cobre, o envelhecimento em barris de carvalho.
A prova final propõe uma gama ampla: rum branco (jovem, potente, notas de cana fresca), rum velho âmbar (envelhecido em barril, mais suave, aromas de baunilha e caramelo), e as famosas versões aromatizadas — baunilha das Maurícias, café da ilha, coco, ananás.
O meu favorito: o rum velho de 5 anos da destilaria de Chamarel. Complexo, equilibrado, com um final longo e delicado. Uma garrafa por cerca de 35 euros, que também se encontra mais barata em alguns supermercados da ilha.
Conselho: reserve a visita com antecedência na época alta. Os grupos podem ser numerosos e os horários esgotam-se depressa. Pode reservar diretamente a rota do chá e do rum com prova em vários domínios online — uma opção que combina várias destilarias e plantações num só dia.
A destilaria de Chamarel combina-se facilmente com a visita às terras de sete cores — o nosso guia de Chamarel mostra como organizar este dia nos planaltos.
Médine: a referência histórica
O Domaine de Médine, no oeste da ilha perto de Flic-en-Flac, é uma das destilarias mauricianas mais antigas ainda em atividade. Fundada no século XIX, produz sobretudo rums de melaço envelhecidos em barril, e os seus rums velhos estão entre os mais respeitados da ilha.
O domínio organiza visitas à destilaria e às caves de envelhecimento. Ver as filas de barris na cave fresca, respirar o cheiro a caramelo e madeira que impregna o ar — é uma experiência sensorial poderosa.
Os rums Médine Brut de Fût (não diluídos no engarrafamento) são pequenas joias para os apreciadores mais sérios: concentrados, complexos, com graus de álcool por vezes superiores a 60%. Reservados aos iniciados, mas excecionais.
A visita a Médine pode combinar-se com um dia em Flic-en-Flac e um pôr do sol na costa oeste.
New Grove: o modernista
New Grove é a destilaria do Domaine de l’Espérance, no sudeste da ilha, perto de Mahébourg. Representa uma nova geração de produtores mauricianos que combinam saber-fazer tradicional e design contemporâneo.
Os seus rums velhos são envelhecidos numa combinação de barris de carvalho americano, francês e por vezes barris que continham whisky ou vinho. Estes acabamentos múltiplos dão perfis aromáticos inesperados e fascinantes.
A gama “Old Tradition” da New Grove, em particular, é uma montra das possibilidades do rum mauriciano de gama alta. Algumas edições limitadas são verdadeiros objetos de coleção.
A loja da New Grove vale por si só uma paragem — bela apresentação, pessoal apaixonado, e possibilidade de provar várias expressões antes de comprar. A destilaria fica a poucos minutos de Mahébourg e pode integrar-se num circuito do sudeste que inclua Blue Bay e o museu da Marinha.
Rhumerie de Labourdonnais
O domínio de Labourdonnais, no norte da ilha, é sobretudo conhecido pelo seu castelo colonial magnificamente restaurado e pelo seu museu. Mas o domínio também produz os seus próprios rums a partir da sua plantação de cana.
A gama é mais modesta do que a de Chamarel ou Médine, mas os rums de Labourdonnais têm uma qualidade sólida e uma identidade própria. A visita ao domínio (castelo + jardim + destilaria) é uma das experiências culturais mais bonitas da ilha, para além mesmo da dimensão do rum.
O domínio situa-se no norte da ilha, facilmente acessível a partir de Grand Baie ou Trou aux Biches. Meio dia é suficiente para explorar o castelo e provar os rums.
Saint Aubin: a diversificação
O domínio de Saint Aubin, no sul da ilha, não longe de Souillac, é um exemplo notável de diversificação agrícola mauriciana. Além do rum, o domínio produz baunilha, café e infusões.
A visita ao domínio é uma imersão na agricultura tradicional mauriciana, com explicações sobre o cultivo da cana, da baunilha e do café. A prova final combina rums e baunilha caseira numa experiência sensorial única.
Comparação rápida das destilarias
| Destilaria | Estilo | Para quem |
|---|---|---|
| Chamarel | Rum agrícola | Primeiro “rum tour”, combinável com as terras de sete cores |
| Médine | Rum de melaço envelhecido | Apreciadores de rums velhos e potentes, perto de Flic-en-Flac |
| New Grove | Rum moderno, acabamentos múltiplos | Curiosos por perfis aromáticos inesperados, perto de Mahébourg |
| Labourdonnais | Rum + património colonial | Quem quer combinar castelo, jardim e destilaria no norte |
| Saint Aubin | Rum, baunilha, café | Apreciadores de diversificação agrícola, no sul perto de Souillac |
Se tiver de escolher apenas uma para uma primeira estadia, Chamarel continua a ser o melhor compromisso entre acessibilidade, qualidade da visita guiada e facilidade de combinação com outros imperdíveis da ilha.
Recordações e presentes além do rum
Se o rum é uma das melhores recordações para trazer das Maurícias, não é a única. O nosso guia sobre recordações a trazer das Maurícias reúne outras boas ideias (baunilha, especiarias, artesanato local) para completar as suas malas sem lhe dedicar um dia inteiro. Se a cozinha crioula o marcou tanto quanto o rum durante a sua estadia, uma aula de cozinha mauriciana é uma excelente forma de regressar com um verdadeiro saber-fazer em vez de um simples objeto. Os mercados e a cultura local também são bons locais para descobrir rums artesanais a preços honestos.
O ti-punch mauriciano
Não se pode falar de rum mauriciano sem falar do ti-punch — a forma como os mauricianos bebem o seu rum no dia a dia. É simples: rum branco, açúcar de cana (em xarope ou em pedaços) e limão verde espremido. Mistura-se conforme as preferências de cada um (a proporção é uma questão muito pessoal) e bebe-se fresco.
O ti-punch é a bebida social por excelência nas Maurícias. Serve-se no aperitivo, nas festas de família, nas praias ao final do dia em Flic-en-Flac ou em Tamarin. Cada um tem a sua receita, a sua forma de o dosear, o seu rum preferido para esta preparação.
Se entrar num bar ou numa tasca local e pedir um “ti-punch”, terá imediatamente um contacto diferente com os locais. É um sinal de conhecimento, uma forma de dizer que está ali para se integrar na paisagem, em vez de ficar na sua bolha turística.
Os rums aromatizados: prazer culpado ou verdadeira descoberta
A categoria dos rums aromatizados (ou “arrangés”) é frequentemente desprezada pelos puristas — injustamente, na minha opinião. Nas Maurícias, esta tradição de macerar frutas e especiarias no rum é antiga e produz resultados por vezes notáveis.
As especialidades a provar sem falta:
- Rum de baunilha das Maurícias: a baunilha local tem um perfume potente e complexo, muito diferente da baunilha industrial que se encontra em todo o lado. Macerada num bom rum branco, dá algo extraordinário.
- Rum de tamarindo: o tamarindo, fruto agridoce muito presente na cozinha mauriciana, dá ao rum uma dimensão ácida e frutada surpreendente.
- Rum de piripíri: não é para todos, mas é um clássico. O calor do piripíri e o do álcool misturam-se de forma estranha e viciante.
- Rum de café de Chamarel: o café produzido nas alturas de Chamarel é um dos raros cafés da ilha. Em versão rum, é um digestivo de luxo.
O rum e a gastronomia mauriciana
O rum mauriciano não é apenas uma bebida para saborear — é também um ingrediente de cozinha. As cozinheiras mauricianas usam o rum branco em certas marinadas, os rums aromatizados para flambear frutas na sobremesa, e o rum velho para perfumar os molhos crioulos.
Nas tables d’hôtes que recomendamos no nosso guia gastronómico das Maurícias, verá muitas vezes o rum surgir como ingrediente discreto mas presente nas sobremesas locais — bananas assadas, frutas exóticas flambeadas, bolo de ananás com rum.
O que trazer
Se tivesse de escolher três garrafas para trazer na bagagem (respeitando os 2 litros permitidos em franquia aduaneira):
Uma garrafa de rum velho Chamarel 5 anos para o prazer do dia a dia e para impressionar os amigos que pensam que o rum se resume ao Bacardi.
Uma garrafa de New Grove Old Tradition para as grandes ocasiões. Um rum sério, complexo, que se saboreia num copo de rum, puro ou com um cubo de gelo.
Uma garrafa de rum aromatizado com baunilha das Maurícias para os cocktails, as sobremesas, e a madalena de Proust daqui a seis meses, quando puser uma gota no seu café e se lembrar do pôr do sol sobre a lagoa de Flic-en-Flac.
Para os apreciadores mais sérios que queiram trazer edições raras ou garrafas de coleção, as lojas das destilarias oferecem geralmente uma melhor escolha do que o duty-free do aeroporto SSR.
Onde comprar rum mauriciano
Nas destilarias: é evidentemente o local ideal para comprar, com a possibilidade de provar antes de escolher e os conselhos dos próprios produtores.
Nos supermercados: as grandes cadeias como a Super U e a Jumbo têm seleções muito boas de rums mauricianos, muitas vezes mais baratas do que nas lojas turísticas. Os supermercados de Port Louis e de Grand Baie têm os melhores sortidos.
No mercado de Port Louis: alguns vendedores comercializam rums aromatizados caseiros a preços muito acessíveis. A qualidade é variável, mas a experiência é autêntica.
No aeroporto SSR: o duty-free oferece uma seleção correta das grandes marcas, a preços ligeiramente inferiores aos das lojas turísticas. Opção de último recurso se se tiver esquecido de fazer as compras durante a estadia.
Uma última palavra sobre a cana-de-açúcar
Conduzir pelas Maurícias em certas épocas do ano é atravessar corredores de cana-de-açúcar que se balançam de cada lado da estrada, por vezes tão altos que formam um túnel de verdura. É uma das imagens mais características da ilha.
Esta cana, que foi o motor de uma economia colonial baseada no trabalho forçado, transformou-se hoje em algo bonito, complexo e agradável de beber. Há algo de profundo nesta transformação — uma história dolorosa que a ilha soube transcender, criando algo com uma singularidade própria.
O rum mauriciano carrega toda esta história na garrafa. Eis por que merece mais do que um olhar distraído no duty-free do aeroporto.
Para completar a sua descoberta gastronómica das Maurícias, o nosso guia gastronómico das Maurícias explora as outras riquezas culinárias — especiarias, cozinha crioula, influências indianas e chinesas — que fazem das Maurícias um destino de viagem tanto para o paladar como para os olhos.
O rum mauriciano a nível internacional
Nos últimos anos, o rum mauriciano começou a ganhar uma reputação séria além das fronteiras da ilha. Nos bares de rum de Paris, Londres ou Amesterdão, encontram-se hoje expressões de Chamarel, New Grove ou Médine ao lado dos grandes rums das Caraíbas. Este reconhecimento internacional é sinal de uma subida de gama real e de uma ambição que vai além do mercado turístico local.
Os concursos internacionais de rum — o Rhum Fest de Paris, o Tales of the Cocktail em Nova Orleães — começam a premiar regularmente as expressões mauricianas. Os rums velhos de Médine e os agrícolas de Chamarel já conquistaram medalhas que fizeram a ilha ser notada como produtor sério.
Por que interessa aos colecionadores
O mercado do rum de coleção está em plena expansão a nível mundial, e as Maurícias representam uma oportunidade interessante para os apreciadores mais atentos. As séries limitadas da New Grove e da Médine (nomeadamente os “Brut de Fût” engarrafados sem diluição) têm tiragens muito modestas e uma capacidade de envelhecimento que as torna atrativas para a constituição de caves de rum.
Ao contrário dos rums das Caraíbas, cujos preços de revenda dispararam no mercado secundário, as expressões mauricianas continuam relativamente acessíveis — mesmo que esta janela se vá estreitando à medida que a sua reputação cresce. Se visitar as destilarias durante a sua estadia, informe-se sobre as séries limitadas disponíveis apenas na loja da destilaria.
Como organizar um dia de “rum tour”
Se quiser estruturar a sua exploração do rum mauriciano num só dia, eis um circuito razoável.
Partida de Flic-en-Flac ou de Tamarin às 8h30. Rumo à destilaria Médine no oeste — visita guiada das 9h às 11h, com prova dos rums velhos. Almoço nas redondezas, depois estrada até às alturas de Chamarel para a tarde. A destilaria de Chamarel recebe visitantes até cerca das 15h. Prova da gama agrícola, compra de algumas garrafas. Regresso à costa oeste para o pôr do sol com um último copo na esplanada de um restaurante.
Este circuito faz-se de carro — o aluguer de carro nas Maurícias é indispensável para um rum tour deste tipo. Não conduza se tiver provado muito: designe um condutor que se limite às bebidas sem álcool durante as visitas, e os outros aproveitam as provas.
O rum nos cocktails mauricianos
Além do ti-punch clássico, o rum mauriciano é a base de vários cocktails locais que vale a pena descobrir nos bares da ilha.
O “punch Chamarel”: rum agrícola branco, sumo de limão verde, xarope de cana, gengibre ralado e um toque de baunilha das Maurícias. Fresco, aromático, ligeiramente picante — o verão tropical num copo.
O “rum sour mauriciano”: rum velho de Médine, sumo de tamarindo, açúcar de cana, clara de ovo. A versão mauriciana do whisky sour, com aquela acidez particular do tamarindo local.
O “coco rum”: rum branco, água de coco fresca, sumo de limão verde. Tão simples quanto o nome, tão refrescante quanto uma brisa sobre a lagoa de Blue Bay.
Nos beach bars de Grand Baie e de Flic-en-Flac, alguns barmen desenvolveram a sua própria criatividade à volta do rum local. Pergunte o que fazem com os rums de Chamarel ou de New Grove — muitas vezes terá direito a uma criação da casa que vale a prova.
Trazer rum: tudo o que precisa de saber
A regulamentação aduaneira portuguesa (e da UE) permite o regresso com 2 litros de bebidas espirituosas com mais de 22 graus por pessoa em franquia de direitos. Para um rum standard a 40-45 graus, isto representa 2 garrafas de 1 litro ou 3 garrafas de 70 cl.
Para os rums Brut de Fût com mais de 60 graus, aplicam-se as mesmas regras de volume, mas o seu valor pode ultrapassar o limite da franquia aduaneira em valor (430 euros por pessoa para viagens fora da UE). Além desse limite, aplicam-se direitos alfandegários.
Quanto ao transporte aéreo: as garrafas devem ir na bagagem despachada, não em cabine. Embale-as com cuidado — garrafas de rum que se partem numa mala são um desastre olfativo. As lojas das destilarias oferecem frequentemente embalagens seguras concebidas especificamente para o transporte aéreo.
Para o seu orçamento global, o nosso guia de orçamento das Maurícias integra as compras de rum nas rubricas de despesa típicas de uma estadia nas Maurícias.
Se preferir organizar o seu rum tour ao longo de um circuito mais alargado em vez de um dia dedicado, o nosso itinerário road trip permite intercalar as destilarias entre as etapas de praia e cultura do seu percurso.