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Relato de viagem: duas semanas nas Maurícias com crianças

Relato de viagem: duas semanas nas Maurícias com crianças

Atualizado em: agosto de 2019

Em resumo
OndeCombinação de costa norte, interior (Chamarel) e costa sudeste (Blue Bay)
PreçoAluguer de carro entre cerca de 400 e 600 euros por duas semanas, sem contar voos e alojamento
Tempo necessárioDuas semanas para um ritmo confortável, uma semana no mínimo
Como chegarVoo direto desde Paris CDG (cerca de 11h); transfer aeroporto-hotel recomendado à chegada
Melhor épocaO ano inteiro para famílias; fora da época ciclónica (janeiro-março) para mais tranquilidade

Viajar para as Maurícias com crianças: com toda a sinceridade

Gostava de ter encontrado um artigo como este antes de partir. Um artigo que não fosse mais uma lista de “top 10 atividades para crianças nas Maurícias” escrita por alguém que nunca pôs os pés num avião com um filho de cinco anos. Um artigo com informação real — o que acontece quando o seu filho de 9 anos apanha uma insolação no terceiro dia, como lidar com uma criança que não gosta de peixe num país onde 80% dos restaurantes servem peixe, e se as 12 horas de avião com uma menina de 5 anos são mesmo uma boa ideia.

A resposta a esta última pergunta: sim, é uma boa ideia. Com algumas condições.

Para as famílias que estão a preparar a viagem, o nosso guia de atividades em família nas Maurícias e o nosso itinerário em família complementam este relato com recomendações práticas e programas adaptados.

A nossa configuração

Viajámos a quatro: eu, o meu marido, a nossa filha Camille (5 anos) e o nosso filho Thomas (9 anos). Duas semanas completas, das quais 10 noites em dois alojamentos diferentes e algumas noites numa casa de campo no centro da ilha. Orçamento intermédio — nada de hotel de 5 estrelas, mas também nada de dormitório.

O voo: menos difícil do que pensávamos

Apanhámos um voo direto desde Paris CDG com a Air Mauritius — cerca de 11 horas de voo. A companhia disponibiliza ecrãs individuais com um catálogo razoável de filmes e desenhos animados para crianças. Eu tinha preparado um tablet com conteúdos descarregados offline, livros de colorir e alguns jogos de viagem.

A Camille dormiu cinco horas seguidas, o que nos ajudou bastante. O Thomas passou praticamente o voo todo a ver filmes. O regresso foi um pouco mais complicado (as crianças voltavam com reservas de resistência ao sono renovadas pelas férias), mas foi gerível.

Conselho prático: escolham lugares de janela/corredor para os pais, com as crianças no meio. Assim têm acesso ao corredor sem incomodar toda a gente às 3h da manhã. Marquem os lugares logo na compra do bilhete.

Preparem também um transfer privado desde o aeroporto com antecedência. Chegar exausto ao fim de 11 horas de voo com duas crianças e ter de negociar um táxi nas chegadas do aeroporto SSR não é o ideal. Um motorista à espera com o seu nome escrito num cartaz é o melhor início de férias possível.

O alojamento: a nossa escolha e o que aprendemos

Primeira estadia: hotel familiar em Trou-aux-Biches (5 noites)

Passámos as primeiras cinco noites num hotel de gama intermédia em Trou aux Biches, na costa norte. Piscina, praia, meia-pensão, animação para crianças à noite. A escolha clássica para uma família.

O que resultou bem: a piscina (a Camille passou lá 70% do tempo), a praia acessível e segura, a possibilidade de deixar as crianças no “kids club” durante algumas horas enquanto respirávamos um pouco. A praia de Trou-aux-Biches é uma lagoa calma com poucas ondas — perfeita para os mais pequenos que estão a começar a nadar.

O que nos surpreendeu: a comida da meia-pensão era um pouco insossa. O Thomas, que normalmente come de tudo, torceu o nariz aos buffets noturnos demasiado orientados para uma “cozinha internacional para turistas”. Rapidamente adotámos o hábito de almoçar fora.

Conselho: mesmo em hotel com meia-pensão, saiam para almoçar o mais vezes possível. É aí que vão descobrir verdadeiramente a cozinha local.

Segunda estadia: casa de campo familiar em Chamarel (2 noites)

O verdadeiro fascínio da viagem. Uma pequena casa de campo com 4 quartos nas alturas de Chamarel, gerida por uma família mauriciana que nos recebeu como se fôssemos velhos amigos. Jardim tropical, redes, gatos espalhados por todo o lado, refeições tomadas todos juntos à volta de uma grande mesa.

Chamarel fica no interior da ilha, nas terras de cana-de-açúcar e florestais do sudoeste. As crianças adoraram: as tartarugas gigantes do parque adjacente, as terras de sete cores a 10 minutos de carro, a cascata de Chamarel. E depois, dormir numa casa mauriciana genuína com uma família mauriciana — isso valeu todos os hotéis do mundo.

O nosso guia de Chamarel apresenta todas as atrações desta excecional região do interior.

Terceira estadia: apartamento em Blue Bay (5 noites)

No final da estadia, queríamos uma base estável e uma bela praia. Blue Bay, a sudeste, é reputada pela sua lagoa e parque marinho. Alugámos um apartamento com cozinha — a flexibilidade das refeições com crianças é preciosa.

Blue Bay é uma praia magnífica, mas pode ficar concorrida. Vão de manhã cedo para encontrar espaço e tranquilidade.

As atividades: o que resultou bem, o que falhou

O que resultou bem

O snorkeling é a atividade rainha para crianças a partir dos 6-7 anos. Na lagoa de Blue Bay, a água é límpida e pouco profunda, os peixes coloridos abundam, e a descoberta do mundo subaquático é uma experiência marcante para as crianças. O Thomas voltou para casa a querer ser biólogo marinho. Um snorkeling guiado em Blue Bay inclui o equipamento e um guia que conhece os melhores locais para observar tartarugas e peixes coloridos.

A visita ao mercado de Port Louis foi uma revelação. Pensava que seria demasiado caótico para as crianças — estava enganada. A Camille ficou fascinada pelas especiarias, as cores, os vendedores a chamar os clientes. O Thomas descobriu os bolinhos de piripíri e comeu três seguidos, a chorar e a pedir o quarto. Um momento antológico.

As tartarugas gigantes no parque de Chamarel. As crianças podem aproximar-se delas, tocar-lhes (com cuidado), observá-las a comer. Uma interação com animais semisselvagens que deixa memórias inesquecíveis.

O passeio de catamarã pela lagoa, com paragem para nadar e piquenique a bordo. Os operadores propõem saídas familiares com almoço. O cenário é idílico, as crianças estão em segurança (coletes salva-vidas fornecidos), e até os pais conseguem relaxar. Uma excursão de catamarã até à Île aux Cerfs é a atividade em família por excelência — as crianças adoram o barco, o banho na lagoa e o almoço crioulo servido a bordo.

O passeio de carro pelas estradas do sul e do oeste — as crianças ficaram encantadas com as cores das terras de Chamarel, com as cascatas, com os macacos que atravessam a estrada na floresta de Macchabée. Aos 9 anos, o Thomas tirava as suas próprias fotos com uma máquina descartável.

A piscina em cada alojamento — já suspeitávamos, mas vale a pena confirmar: as crianças conseguem passar horas seguidas numa piscina tropical sob o sol mauriciano. Reservem tempo livre para isso.

O que correu menos bem

A insolação do terceiro dia — o Thomas brincou demasiado à beira de água sem chapéu entre o meio-dia e as 14h. Náuseas, dores de cabeça, febre alta durante 24 horas. Lição aprendida à nossa custa: chapéu obrigatório, recolher à sombra entre as 12h e as 15h, protetor solar de duas em duas horas na areia molhada.

O trilho do Le Morne — tentámos com os dois filhos. A Camille não conseguiu chegar ao fim, o que era previsível com as pernas pequenas que tem. O Thomas até conseguiria terminar, mas ficou desanimado com a desistência da irmã. Um trilho a reservar para famílias com filhos com mais de 10-12 anos. O nosso guia dos trilhos nas Maurícias propõe alternativas mais adequadas às famílias.

As viagens longas de carro — a ilha é pequena, mas as estradas podem ser lentas. Prevejam snacks, música e um tablet carregado para deslocações com mais de 45 minutos.

Os restaurantes demasiado sofisticados com crianças — um erro nosso. Alguns serões, cansados de procurar, escolhemos restaurantes demasiado formais para a idade das crianças. Resultado: o Thomas aborrecia-se e a Camille queria ir embora ao fim de 20 minutos. Da próxima vez: restaurantes locais descontraídos, pratos simples, horários adaptados às crianças.

Saúde e segurança: o que não se diz o suficiente

Os mosquitos estão presentes nas Maurícias, sobretudo na época das chuvas. Apliquem repelente adequado a crianças a partir do pôr do sol. Os mosquitos transmitem chikungunya e dengue — levem isto a sério.

A comida picante pode ser um problema para as crianças pequenas. Nos restaurantes locais, peçam os pratos “sem piripíri” — os mauricianos compreendem e adaptam-se.

A água da torneira não é aconselhável para os estômagos sensíveis das crianças pequenas. Água engarrafada para beber e lavar os dentes nos primeiros dias, até o organismo se adaptar.

A farmácia: existem farmácias de serviço nas Maurícias, mas nem todos os medicamentos comuns em Portugal estão disponíveis. Levem um kit de primeiros socorros completo: analgésico adequado a crianças, antidiarreico, antisséptico, creme para picadas, e os medicamentos habituais se os vossos filhos tomarem algum.

O banho: se as lagoas da costa norte e oeste são geralmente calmas e seguras, algumas zonas da costa este e sul são mais agitadas. Na costa este (como Roches Noires), as ondas podem ser fortes — pouco adequadas a crianças pequenas. O nosso guia das praias das Maurícias indica os níveis de segurança de cada praia.

A logística prática

O aluguer de carro é indispensável para uma família. O autocarro é pouco prático com bagagens, crianças e horários desencontrados. O aluguer de carro nas Maurícias por duas semanas ronda os 400-600 euros consoante o veículo — um investimento amplamente compensado pela liberdade que proporciona.

Duas semanas é o ritmo certo com crianças — tempo suficiente para não andar a correr de um lado para o outro, variedade suficiente para manter o interesse delas. Os primeiros dias são desestabilizadores (ligeiro desfasamento horário, calor, novos ambientes), mas depois as crianças adaptam-se rapidamente.

Prevejam dias sem atividade programada. Os melhores momentos são muitas vezes aqueles em que não se faz nada de especial — uma manhã na praia sem plano, uma tarde na piscina com um livro. As crianças precisam de descompressão tanto quanto os adultos.

O que repetiríamos

Praticamente tudo, com toda a sinceridade. Duas semanas é o ritmo certo com crianças — tempo suficiente para não andar a correr de um lado para o outro, variedade suficiente para manter o interesse delas. A combinação hotel costeiro / casa de campo no interior / apartamento no final da estadia funcionou bem.

Se fosse para repetir, iria diretamente para o apartamento e zero hotel all inclusive. A liberdade das refeições, o espaço para as crianças, o contacto com a vida local — isso não tem preço.

Também reservaria o transfer aeroporto-alojamento com antecedência. Depois de 11 horas de voo com duas crianças, não é a altura de improvisar transportes.

Maurícias com crianças: veredito

As Maurícias são um destino excelente para famílias. As lagoas são seguras, os mauricianos são extraordinariamente simpáticos com as crianças, não faltam atividades adequadas, e a beleza das paisagens é uma experiência em si mesma para os mais pequenos.

É uma viagem que exige uma preparação cuidada (saúde, logística, ritmo), mas que compensa largamente o esforço. Os meus filhos ainda ficam com brilho nos olhos quando falam disso.

Para o vosso planeamento, o nosso itinerário em família nas Maurícias propõe um programa dia a dia testado e aprovado. E para o orçamento, o nosso guia de orçamento das Maurícias dá números precisos para as viagens em família.

Vale bem a pena.

O que gostávamos de ter sabido antes

Olhando para trás, há várias coisas que gostava que nos tivessem explicado antes desta estadia em família. Deixo-vos aqui, sem filtros.

O desfasamento horário é praticamente inexistente. As Maurícias estão em UTC+4, ou seja, 2-3 horas de diferença em relação a Portugal consoante a estação. As crianças adaptam-se em um ou dois dias no máximo. É uma das grandes vantagens das Maurícias em relação a outros destinos longínquos como as Caraíbas ou a Ásia.

O tempo pela manhã é um indicador fiável. Nas Maurícias, se o sol brilha às 8h, há grandes probabilidades de brilhar o dia todo. Os aguaceiros tropicais formam-se geralmente a meio ou ao final da tarde. Planeiem as atividades ao ar livre para a manhã, e reservem as tardes para atividades mais flexíveis ou à sombra.

As crianças mauricianas estão por toda a parte. Ao contrário de alguns destinos onde as crianças são invisíveis nos espaços públicos, nas Maurícias elas estão presentes em todo o lado — nos mercados, nas praias, nos restaurantes. Os vossos filhos nunca serão os únicos na sala, e os mauricianos são extraordinariamente tolerantes e calorosos com as crianças estrangeiras.

Preparem roupa que cubra bem para as noites. As costas mauricianas são quentes durante o dia, mas as noites podem ser frescas nos planaltos ou ventosas nalgumas zonas da ilha. Depois do pôr do sol, um casaco leve ou uma camisola comprida é bem-vindo, sobretudo para as crianças.

Um balanço atividade por atividade

Para ajudar quem está a preparar a estadia, aqui fica um balanço rápido das atividades por faixa etária, com base na nossa experiência com a Camille (5 anos) e o Thomas (9 anos).

IdadeAtividades recomendadasA evitar
Menos de 6 anosPiscina, praia com lagoa calma (costa norte/oeste), tartarugas gigantes de Chamarel, jardins botânicos, mercado com os paisTrilhos longos, mergulho, excursões marítimas de várias horas
6-10 anosSnorkeling na lagoa com colete, excursão de catamarã, terras de Chamarel, mercado de Port Louis, bicicleta junto ao marTrilho do Le Morne (demasiado exigente), mergulho com garrafa
10 anos ou maisTrilho do Le Morne, batismo de mergulho, golfinhos em Tamarin, caiaque, visita a destilariaPoucas restrições nesta idade, adaptar consoante a resistência da criança

Para os menores de 6 anos: piscina, praia com lagoa calma (costa norte, costa oeste), aquário (se existir na vossa zona), tartarugas gigantes, visita a jardins botânicos, mercado com os pais.

Para os 6-10 anos: snorkeling na lagoa (com colete), excursão de catamarã até à Île aux Cerfs, visita às terras de Chamarel, mercado de Port Louis, passeio de bicicleta junto ao mar.

Para os 10 anos ou mais: trilho do Le Morne (difícil mas exequível), batismo de mergulho, nadar com golfinhos em Tamarin, caiaque na lagoa, visita a destilaria (Chamarel).

As praias mais adequadas para crianças pequenas

Nem todas as praias das Maurícias são iguais para o banho dos mais pequenos. As lagoas da costa norte e da costa oeste, protegidas pela barreira de coral, oferecem geralmente uma água calma e pouco profunda: Trou aux Biches, Mont Choisy e Flic en Flac são particularmente adequadas. Na costa este, algumas zonas como Roches Noires recebem mais ondulação e vento, a reservar para crianças mais crescidas e à vontade na água. O nosso guia das melhores praias para famílias detalha a segurança e os equipamentos (sombra, restauração nas proximidades) de cada local.

A questão do alojamento: o nosso veredito final

Depois desta viagem, a minha convicção é que, com crianças, o apartamento ou a casa de campo familiar é de longe a melhor opção.

O hotel all inclusive é uma opção confortável, mas cria uma bolha que isola do país. Come-se sempre no mesmo sítio todas as noites, vê-se sempre os mesmos turistas, praticamente não se fala com mauricianos. As crianças divertem-se na piscina, certo — mas voltam para casa sem terem aprendido nada sobre as Maurícias.

O apartamento com cozinha, pelo contrário, obriga-nos (no bom sentido) a abastecermo-nos no mercado local, a procurar um restaurante de bairro, a pedir conselhos aos vizinhos. O Thomas teve a sua conversa em kreol com o padeiro do bairro e ainda fala disso. A Camille aprendeu a reconhecer uma papaia fresca no mercado. Estas pequenas coisas não têm preço.

O nosso guia de alojamento nas Maurícias lista as melhores opções de apartamentos e casas de campo familiares para cada região da ilha.

O nosso kit prático para viajar em família

Olhando para trás, alguns equipamentos e hábitos fizeram mesmo a diferença: chapéus de aba larga e protetor solar de fator elevado para os dois filhos, garrafas reutilizáveis, repelente de mosquitos adequado à idade, e um kit de farmácia completo, porque alguns medicamentos comuns em Portugal não se encontram facilmente na ilha.

O nosso guia de saúde nas Maurícias e a nossa lista do que levar na mala cobrem estes preparativos em detalhe. Quanto à viagem de avião, a questão do desfasamento horário resolve-se depressa — já a do entretenimento das crianças durante onze horas de voo é menos simples; a nossa seleção de aplicações úteis em viagem inclui ideias offline para as viagens longas.